bóia de flutuação
Os olhos. Escuros como melado. Tristes como partir. O maço de cigarros na mesa enquanto tenta convencer sua amante que seus beijos são para ela. Você e só você, diz. Sussurra através dos dedos e a cada empurrão da coxa. Quando saem, o rapaz chega para trocar os lençois. Deixa aberta a janela o dia inteiro para que o ar passe por dentro e para fora de novo. O cheiro dela flutua até o corredor e desco a escada. Eu finjo que não percebo nada. Eu carrego meu amor na palma da mão como se for a um ovo.
Estou tentando furiosamente forçar o ar das bochechas e dentro dum tubo de flutuação verde e brilhante. Está alí, o cheirinho. Se não está, eu sinto falta dele como eu sinto falta de beber café de manhã. Sinto uma batucada nas têmporas e nuvens na cabeça. Mas, esquece tudo isto. Estou montando uma cadeira de praia, dois pedaços de madeira juntos para formar a letra v. Evitando as lascas. Enxergo-a comendo camarão no bar adiante. Imagino-a enterrando os dedos do péna areia. Lê um livro, alheia a tudo ao redor dela. Estou consciente de etudo, a conversação virando uma luta de uma lingua só. Encho mais seis tubos e os empilho um em cima do outro, como um rolo de LifeSavers.
Não me importa, eu sussurro ao mar, entrando na água devagarzinho. Agora, nadando fora dos barcos pesqueiros, olhando para ela e pros nossos amigos bebendo no bar na praia. Caipirinhas de limão, morango, maracujá emperrado nos canudinhos. Esquece tudo isto, eu penso, flutuando com as costas para baixo. Você e só você. Mais umas braçadas compridas. Cuspindo a água para fora. Dizem que é imposível se afogar em água salgada assim. A água é densa demais. O corpo vira uma bóia de flutuação.
Vejo-os agora, cabeças do tamanho das bolinhas de gude em baixo à sombra do guarda-sol amarelo. Cigarros presos entre os dedos. A brisa constante levando a fumo para longe. Embora não enxergue claramente os rostos deles, eu sei que estão rindo. Os chinelos deles misturados numa massa sob a mesa. E aí, como se fosse um filme, o livro está posto na mesa, a bebida está quase derramada, uma desculpa pedida, ela se ergue e dá uns passos definitivos em direção à água. Mas o que eu acreditei ser acaba na retirade duma canga. A sacudinha dela. Pedaçinhos de areia nunca alcançando as duas mãos dadas em baixo d'água. Não tive coragem de falar que vamos demorar.

1 Comments:
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